ARTE & CIDADANIA
Um mundo de imagens para ler
Ao desvendar o universo visual de seu cotidiano, o aluno vai conhecer melhor a si mesmo, compreender sua cultura e ampliá-la com a de outros tempos e lugares
Esses elementos visuais estão carregados de informações sobre nossa
cultura e o mundo em que vivemos. Portanto, têm muito a ensinar.
A cultura visual - nome desse novo campo de estudo - propõe que as
atividades ligadas à Arte passem a ir além de pinturas e esculturas,
incorporando publicidade, objetos de uso cotidiano, moda, arquitetura,
videoclipes e tantas representações visuais quantas o homem é capaz de
produzir. Trata-se de levar o cotidiano para a sala de aula, explorando a
experiência dos estudantes e sua realidade.
Teoria
O arte-educador e pesquisador norte-americano Elliot Eisner escreveu que o ensino se torna mais abrangente quando utiliza representações visuais, pois elas permitem a aprendizagem de tudo o que os textos escritos não conseguem revelar. Com base nisso, um grupo de pesquisadores norte-americanos passou, nos anos 1990, a estudar a ligação da Arte com a Antropologia. Ganhou o nome de cultura visual e hoje envolve também Arquitetura, Sociologia, Psicologia, Filosofia, Estética, Semiótica, Religião e História. Fernando Hernández é hoje um dos principais pesquisadores do assunto. Ele destaca que estamos imersos numa avalanche de imagens e que é preciso aprender a lê-las e interpretá-las para compreender e dar sentido ao mundo em que vivemos. Assim, crianças e adolescentes serão capazes de analisar os significados da imagem, os motivos que levaram à sua realização, como ela se insere na cultura da época, como é consumida pela sociedade e as técnicas utilizadas pelo autor. Na escola, isso significa que o ensino de Arte ganha uma perspectiva mais profunda. De conhecedor de artistas e estilos, o aluno passar a ser leitor, intérprete e crítico de todas imagens presentes em seu cotidiano
Roteiro para o olhar
O pesquisador norte-americano Robert William Ott, da Penn State
University, criou o seguinte roteiro para treinar o olhar sobre obras de
arte, mas ele pode ser adaptado a atividades ligadas à cultura visual. O
diferencial é fazer sempre a relação com a realidade do aluno:
1
Descrever
Para aproveitar tudo o que uma imagem pode oferecer, os olhos precisam
percorrer o objeto de estudo com atenção. Dê um tempo para a obra se
"hospedar" no cérebro. Em sala de aula, peça que todos descrevam o que
vêem e elaborem um inventário.
2
Analisar
É hora de perceber os detalhes. As perguntas feitas pelo professor
devem ter por objetivo estimular o aluno a prestar atenção na linguagem
visual, com seus elementos, texturas, dimensões, materiais, suportes e
técnicas.
3
Interpretar
Um turbilhão de idéias vai invadir a classe e você precisa estar atento a todas elas, para
aproveitar as diversas possibilidades pedagógicas. Liste-as e eleja com a turma as que
correspondam aos objetivos de ensino. Meninos e meninas devem ter
espaço para expressar as próprias interpretações, bem como sentimentos e
emoções. Mostre outras manifestações visuais que tratem do mesmo tema e
estimule-os a fazer comparações (cores, formas, linhas, organização
espacial etc.).
4
Fundamentar
Levantadas as questões que balizarão o trabalho, é tarefa dos estudantes buscar respostas.
Elabore junto com eles uma lista com os aspectos que provocam
curiosidade sobre a obra, o autor, o processo de criação, a época etc.
Ofereça textos de diversas áreas do conhecimento para pesquisa e indique
bibliografia e sites para consulta, selecionando os textos de acordo
com os interesses e o nível de conhecimento da classe.
5
Revelar
Com tantas novidades e aprendizados, a turma certamente estará estimulada a produzir.
Discuta com todos como gostariam de expor as idéias que agora têm.
Quais são essas idéias e como comunicá-las? É hora criar, desenhar,
escrever, fazer esculturas, colagens...
Em sua casa as pessoas têm o hábito de tomar café e/ou oferecê-lo às visitas?
Exercício
A
consultora Mirian Celeste Martins mostra, a seguir, como observar
objetos do cotidiano e aprender com eles. Neste exemplo ela usou
xícaras. Se você escolher outros materiais para explorar com seus
alunos, é preciso adaptar as questões. O primeiro passo é fazer uma
descrição detalhada, para conhecer as características e funções. Em
seguida passe às perguntas.
Em sua casa as pessoas têm o hábito de tomar café e/ou oferecê-lo às visitas?
- Quais as semelhanças e diferenças entre as xícaras ao lado? Descreva-as.
- Para que serve cada um de seus elementos? Por que foram desenhados assim?
- Todas estas xícaras são utilizadas hoje? Onde? Por quem?
- É possível estimar em que época elas foram feitas? Quais elementos levam a essas hipóteses? Por quem foram produzidas? Em que época?
- O que essas imagens provocam em você? Perceba suas emoções e sensações.
- Como seu corpo reage às três xícaras e à obra de Regina Silveira?
- O que podemos pensar sobre os hábitos de nossa cultura?
- Outros povos têm costume de tomar café? Eles produzem outros tipos de xícara?
- Por que os americanos tomam a bebida em xícaras grandes? Por que os árabes costumam ler a borra do café que fica no fundo da xícara?
- Como seria nosso auto-retrato como xícara? Que tipo de xícara seríamos?
- O que se pode criar com base nas imagens acima? É possível inventar histórias para cada uma, criar personagens com as mesmas características das xícaras? Escrever, desenhar, dramatizar, dançar, esculpir uma cena dessa história? Criar um novo desenho de xícara, pensando em quem tem um grande bigode ou um enorme nariz?
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